Em busca da competitividade

Gerente de Inovação e Tecnologia do Senai-SP, Osvaldo Lahoz Maia fala sobre dificuldades e soluções para a indústria brasileira


O que o Brasil precisa fazer para se tornar relevante em inovação, pesquisa e desenvolvimento? A questão é complexa e a resposta, mais ainda. Nas discussões País afora, diversos pontos são apontados e discutidos. E, sobre um, sempre há consenso: a formação de capital humano de qualidade é fundamental.

Por isso, para ajudar a responder à questão que abre este texto, procuramos Osvaldo Lahoz Maia. Gerente de Inovação e Tecnologia do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial de São Paulo (Senai-SP), ele se dedica diariamente a elaborar estratégias que envolvem tecnologia para melhorar os processos produtivos nas empresas, além de contribuir com o aprimoramento da grade curricular da entidade, que anualmente forma trabalhadores para a indústria.

Na entrevista, o profissional destaca que diversos aspectos conjunturais prejudicam o País, mas aponta caminhos e cita ações que já estão sendo feitas. “O Brasil só romperá a chamada armadilha de renda média quando tivermos o setor industrial alinhado com o de serviços de alto valor agregado”, aponta. “Isso acontece nos países desenvolvidos e temos que trilhar esse caminho.” Confira a entrevista completa.

Nos últimos anos, apesar da pequena recuperação apontada em 2018 — subimos da 69ª para a 64ª posição —, o Brasil caiu no Índice Global de Inovação, divulgado anualmente por entidades internacionais. Por quê?
São vários os aspectos, muitos típicos das características conjunturais do País. Um deles passa pelas estratégias que o governo está administrando para essa questão de inovação. Quanto do orçamento federal é destinado para pesquisa e desenvolvimento? Quanto é reservado para as pesquisas dentro das universidades? Sabemos que, nos últimos anos, esse valor diminuiu muito. Tudo isso interfere nos resultados. Outro ponto é que as empresas estão muito descapitalizadas, principalmente as médias e pequenas, e não têm fôlego para investir em inovação. O momento econômico é difícil, o Custo Brasil é alto, e isso tira a capacidade de investimentos. Há ainda o fato de o País dar pouca importância para a formação de pesquisadores. Os grandes grupos empresariais têm condições de fazer pesquisa, mas fica muito restrito a eles.

Quais passos o Brasil está dando para melhorar este cenário? O crescimento no Índice Global de Inovação de 2018 reflete algum avanço prático?
Essa melhora é ainda muito pequena. Nosso índice de competitividade, se comparado a outros países, é baixo. Um dos pilares da competitividade é a inovação, e nosso desempenho aí deixa a desejar. Temos um longo caminho para recuperarmos a perspectiva de sermos efetivamente inovadores. O Brasil só romperá a chamada armadilha de renda média quando tiver o setor industrial alinhado com o de serviços de alto valor agregado. Isso acontece nos países desenvolvidos e nós temos que trilhar esse caminho.

E como trilhar esse caminho?
O setor industrial, por meio de entidades como a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e a Confederação Nacional da Indústria (CNI), tem feito esforços muito grandes para dar diretrizes. Inclusive, durante a campanha presidencial, foram elaborados diversos cadernos de orientação para os candidatos. Dentre as estratégias apresentadas, está o incentivo às aulas de ciências exatas para os alunos dos ensinos Médio e Fundamental. Aliás, o ministro Marcos Pontes, da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, manifestou a intenção de dar ênfase à melhora educacional com vistas à ciência e tecnologia. Esse é um pilar importante, de motivação dos jovens. Há uma sigla em inglês já conhecida mundialmente, a STEM, de Science, Technology, Engineering and Mathematics [Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática, em português], que estimula os alunos a gostarem dessas áreas, por meio de atividades práticas que misturam diferentes conhecimentos e conduzem a uma aprendizagem criativa. É feito nos Estados Unidos e o Brasil parece que também quer dar atenção a isso. Outro ponto importante é a melhoria da grade curricular geral dos alunos. Essa atenção ao ensino de base é importantíssima. É necessário, ainda, incentivar as empresas a investirem em tecnologia. Elas precisam entender que o diferencial, agora, é a tecnologia, e não a produção em massa. Com os conceitos de 4.0, as empresas devem se conscientizar de que o mundo globalizado está aberto à competição.

Fala-se muito sobre a falta de políticas públicas que incentivem o investimento em inovação. No ano passado, vimos o lançamento do ‘Rota 2030’, o programa do governo federal que submete os estímulos à indústria automobilística a investimentos em pesquisa e desenvolvimento. O Brasil precisa avançar nessas políticas? A falta delas prejudica a indústria?
O esforço do governo federal está muito pulverizado, falta sinergia de esforços. Precisa haver um encontro de políticas entre os diferentes ministérios. Até pouquíssimo tempo atrás, cada um tinha suas próprias estratégias e programas, sem pensar em uma ação unificada. Ajudaria muito o País se tivéssemos, por exemplo, uma política industrial alinhada com a educacional. Seria um grande passo. 

Hoje, há linhas de crédito razoáveis à disposição de quem quer inovar, seja a empresa de grande, médio ou pequeno porte?
Há uma pesquisa da Fiesp, do fim do ano passado, chamada Rumos da Indústria Paulista – Barreiras à Competitividade e ao Crescimento da Indústria, que levanta causas para os entraves que temos. 83% dos empresários apontam a tributação como impeditivo para a competitividade. Burocracia vem em 2° lugar, com 56,7% das opiniões. Crédito para capital de giro está em 3°, com 39,2%. Dificuldade em fazer investimentos está em 4°, com 35,2%.  Ambiente e segurança política, com 31,6%, em 5°. Esse é o cenário de uma pesquisa feita em São Paulo e que exemplifica bem as barreiras erguidas diante dos empresários. Somam-se a isso o alto preço de energia elétrica e dificuldades logísticas, dentre outras. São grandes os desafios.

Apesar das dificuldades para investir, as médias e pequenas empresas estão atentas à importância da pesquisa? Além disso, já há mais integração entre os pesquisadores das empresas e os das universidades?
A preocupação com a sobrevivência e a ciência de que ela passa pelo lançamento de produtos de alto valor agregado fizeram com que todo o setor produtivo mudasse sua cultura e estivesse mais atento às pesquisas. Hoje, aliás, o Senai-SP se esforça para implementar tecnologia de manufatura enxuta nas pequenas empresas, conseguindo aumentar, em média, 30% da produtividade dessas indústrias. Esse é um bom caminho para as companhias, que começam a organizar os sistemas produtivos com baixo custo. O Senai-SP está preparado para oferecer esse tipo de solução. Os empresários começarão a entender o mundo da indústria 4.0 a partir de soluções mais simples. À medida que eles crescem nesse entendimento, começam a subir a escada tecnológica no caminho do 4.0.

Especialistas sempre fazem questão de deixar clara a importância do capital humano para a implementação da indústria 4.0. Por outro lado, a formação básica do profissional brasileiro e sua produtividade estão bastante abaixo da dos países mais desenvolvidos. Isso é, de fato, um problema brasileiro? Como melhorar a formação básica de nossos profissionais?
Temos três pilares para a implementação dos conceitos de indústria 4.0. A tecnologia, que está se tornando commodity, cada vez mais barata; o capital humano, parte essencial; e a mudança de pensamento de plataforma de negócio. Sobre o último ponto, uma empresa que vende turbina, hoje, na verdade vende horas voadas. Outra que comercializa pneus, entrega quilômetros rodados. Então, o olhar agora é muito diferente. Com relação ao capital humano, o Senai-SP tem um papel fundamental nessa questão: estamos pensando a qualificação profissional com ênfase no mundo digital. Já oferecemos cursos a distância, alguns gratuitos, voltados à indústria 4.0, competitividade e blockchain, dentre outros. Além do governo federal, conforme citei anteriormente, a indústria tem essa preocupação.

Em cadeias produtivas longas, como é o caso do segmento do alumínio, a inovação acontece de maneira mais natural?
Na questão do alumínio e dos metais como um todo, é muito importante traçar rotas tecnológicas para os novos desenvolvimentos de produtos. Materiais mais leves e resistentes, como é o caso do alumínio, estão em alta e são usados em setores distintos. Por exemplo, o alumínio aplicado na indústria aeronáutica ou automotiva é diferente do aplicado em esquadrias. E essas indústrias de alta tecnologia, que utilizam ligas mais leves e especiais, precisarão de fornecedores capazes de desenvolvê-las. Por outro lado, as empresas que fornecerão essas ligas precisam de parceiros que as precedem na cadeia também com tecnologia produtiva de ponta. Ou seja, forma-se uma cadeia de alto valor agregado e no setor de metais é muito importante. Por questão de sobrevivência, no mundo ninguém está sozinho. Você pode ser um produtor de parafuso e, se não se adequar, poderá ser eliminado. É um imperativo, não se pode estar acomodado, é preciso ter curiosidade para inserir tecnologia no produto e nos processos. E isso nem sempre é fácil, o dia a dia das empresas é pesado, mas não há como deixar essa questão no acostamento de ideias. Ou você faz ou alguém fará.

As perspectivas para o País em termos de inovação, pesquisa e desenvolvimento são boas?
Há um movimento grande das entidades setoriais para estimular as empresas. O Brasil vive um novo momento. Esperávamos um crescimento maior em 2018, mas temos de ser otimistas. A indústria sempre tem esse olhar positivo. O Brasil está se precarizando precocemente, a desindustrialização é forte e isso não pode acontecer. Precisamos retomar nossa participação no PIB e, para isso, são necessárias ações conjuntas de todos os elos envolvidos. Ressalto que, do ponto de vista da tecnologia e inovação, o Senai-SP está aparelhado para ajudar as empresas com assistência técnica e tecnológica, tanto em processos discretos como contínuos. Além disso, seguimos com a nossa atuação tradicional, de formação de bons profissionais para a indústria.


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