O desafio é inovar

Iniciativa da ABAL visa a atrair startups e techs que desenvolvam soluções de rastreabilidade para o setor


Foi-se o tempo em que inovar era ação exclusiva da área de pesquisa e desenvolvimento das empresas. Na atualidade, esse verbo requer colaboração e construção conjunta ou, em uma única expressão, é sinônimo de cocriação. Essa transformação no jeito de fazer inovação é relativamente nova, remonta ao início dos anos 2000 e ganha força a partir da última década. “São movimentos paralelos. De um lado, as empresas deixam de apostar unicamente nos esforços internos de P&D [pesquisa e desenvolvimento] e começam a admitir a possibilidade de contar com parceiros externos para aumentar a capacidade de inovação. De outro, a revolução digital, impulsionada por empresas como Apple e Google, traz para o mercado startups que começam a desenvolver soluções ancoradas nessas tecnologias”, explica Bruno Rondani, CEO da 100 Open Startups, plataforma digital cujo foco é conectar grandes empresas a startups para a geração de negócios. O resultado, complementa Rondani, é que não só as pessoas se tornaram digitais ao adotar o uso do smartphone e usufruir de serviços como Netflix, Spotify e Airbnb, mas também as empresas. “Agora, além da área de P&D, que busca o desenvolvimento de novos produtos ou serviços focados no core (ou na essência) do negócio, áreas complementares como Logística, Recursos Humanos, Jurídico e Operações passam a demandar soluções digitais e encontram nas startups um grande número de oportunidades”, explica o CEO.

E por que as startups são tão atrativas? Quem responde é Kaísa Couto, diretora técnica da Associação Brasileira do Alumínio (ABAL). “Trata-se de um meio desburocratizado, ágil, assertivo e criativo. Essas empresas atuam sob uma nova maneira de pensar.” A entidade ingressou nesse universo ao lançar um desafio específico na plataforma 100 Open Startups. Como relata Kaísa, a necessidade de se aproximar desse ecossistema de inovação aberta surgiu com a publicação da Rota Estratégica da Cadeia Brasileira do Alumínio 2030, documento lançado pela ABAL em fevereiro de 2018, que traça a visão de futuro do setor e mapeia uma série de ações para assegurar a competitividade e sustentabilidade nos próximos dez anos. Muitas iniciativas do roadmap estão ligadas a questões de tecnologia e inovação e, por isso, a aproximação com startups faz tanto sentido. Para Rodrigo Rodrigues, coordenador de Inovação da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), as startups auxiliam as empresas a entender como será a indústria do futuro. “Elas atuam como um vetor de transformação, ajudam as grandes organizações a adotar metodologias ágeis, novos modelos de negócio e métodos mais inovadores de gestão de projetos. Em resumo, contribuem para que as empresas pensem simultaneamente a competitividade do presente e do futuro”, destaca o coordenador da ABDI.

Rastreabilidade como tema da vez
A ABAL partiu de um problema real para desenhar o desafio: o aumento, nos últimos anos, de roubos de carga de matérias-primas e produtos transformados, como lingotes, tarugos, laminados, extrudados, fios, cabos e sucatas. Como elenca o gerente de Operações Logísticas da Companhia Brasileira de Alumínio (CBA), Vagner de Sousa Lima, que integra o grupo de trabalho da ABAL, os ganhos imediatos seriam a redução nos episódios de roubos de carga e da informalidade, a diminuição dos custos operacionais e a melhoria nos prazos de entrega, aumentando a satisfação dos clientes, assim como uma gestão mais efetiva da cadeia como um todo.

Mas o Desafio de Rastreabilidade de Produtos de Alumínio vai além, já que conhecer a identidade, origem e o destino das matérias-primas e produtos é essencial para garantir a qualidade e a segurança da cadeia e fundamental para viabilizar a análise de ciclo de vida (ACV) dos produtos de alumínio, além de colaborar para que o setor comece a aplicar conceitos da chamada Indústria 4.0. Segundo Kaísa Couto, a entidade quer o apoio de empreendedores para desenvolver soluções que atendam a rastreabilidade e controle dos produtos de alumínio nas etapas de produção, transporte ou comercialização, e também para a rastreabilidade permanente, tendo em vista a peculiaridade do alumínio e sua característica de reciclabilidade. “Estamos pensando também em soluções que permitam a identificação da origem daqueles produtos que já passaram por processos de transformação, como refusão, laminação e extrusão”, esclarece Kaisa.

Para as startups e techs, é a chance de estabelecer parcerias e negócios com um setor consolidado da economia brasileira. “Como associação, a ABAL é uma das primeiras a aderir ao programa e a trabalhar de forma estruturada um grande desafio setorial com a nossa plataforma”, afirma o CEO da 100 Open Startups. Além da equipe técnica da ABAL e das empresas associadas à entidade, o Desafio tem o apoio de outras organizações e deve contar com o envolvimento de representantes de órgãos públicos, empresas de outros setores e investidores. Cileneu Nunes, que preside a Associação Brasileira das Empresas de Gerenciamento de Riscos e de Tecnologia de Rastreamento, Monitoramento e Telemetria (Gristec), uma das entidades apoiadoras, parabeniza a ABAL pelo protagonismo. “As conexões são sempre muito bem-vindas. As empresas ajudam a trazer as startups para o mundo real, com problemas do cotidiano para solucionar.” Nunes também está à frente de uma aceleradora, a Upaya Desenvolvimento Corporativo.

Inovação aberta para além do alumínio
A plataforma 100 Open Startups nasceu em 2008, com o objetivo de capacitar gestores de inovação de grandes empresas em métodos de inovação aberta e ajudar empreendedores no processo de captação de investimentos. Só mais tarde, ao unir as duas vocações, é que a organização se transformou em uma plataforma de conexão. “Fomos financiados por mais de cem grandes empresas, o que impulsionou a adesão das startups, que encontram em um único lugar várias organizações com quem podem fazer negócios. Para as empresas, também é uma vantagem atuar em conjunto”, explica Randoni. Segundo ele, já são mais de 1.100 empresas conectadas, as quais participam dos eventos e das redes de avaliação, que fomenta o ranking das startups mais atrativas para o mercado corporativo – divulgado anualmente pela plataforma. “Em três anos, ajudamos a firmar mais de 3.200 contratos entre startups e grandes empresas”, ressalta.

Trabalho semelhante realiza a ABDI, ligada ao Ministério da Economia, que agregou as atribuições do antigo Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços. Em março de 2017, a agência lançou o primeiro ciclo do Programa Conexão Nacional Startup Indústria, conectando dez empresas de grande porte, entre elas Embraer, Votorantim Cimentos e Natura, a 27 startups. Além de auxiliar nessa primeira aproximação, a ABDI atua na gestão do relacionamento entre as partes e garante aportes financeiros. O sucesso da primeira experiência propiciou a estruturação de um segundo ciclo, atualmente em andamento. “Dessa vez haverá trinta empresas e sessenta startups, sendo que três organizações e seis startups virão de Portugal”, explica o coordenador de Inovação da ABDI, Rodrigo Rodrigues, responsável pelo programa.

Outro exemplo similar à iniciativa da ABAL vem da região de Caxias do Sul (RS). Quatro empresas do setor metalmecânico, em parceria com o Sindicato das Indústrias Metalúrgicas, Mecânicas e de Material Elétrico de Caxias do Sul (Simecs), criaram o projeto Hélice – Movimento pela Inovação, que visa a identificar startups que atendam as demandas mapeadas por elas. “Essas empresas entenderam que se não se organizarem como um ecossistema, para atrair mais tecnologia e inteligência, será difícil manter a competitividade daquele pólo produtivo”, enfatiza o coordenador da ABDI.

As etapas do desafio
Lançado no fim de janeiro, o Desafio Rastreabilidade de Produtos de Alumínio também foi tema de uma palestra no evento Open Innovation Week – Science Meets Business (Oiweek SciBiz), realizada pela 100 Open Startups em fevereiro, no campus da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA-USP).

Open Innovation Week, organizado na FEA-USP, em São Paulo

As startups e techs interessadas no desafio podiam se inscrever até o dia 15 de abril, no portal www.openstartups.net. Por meio de uma ferramenta disponível na plataforma, batizada de machtmaking, a equipe técnica da ABAL e as empresas envolvidas no projeto também conseguem buscar ativamente startups que atuam com gerenciamento de riscos, rastreabilidade, soluções logísticas e Indústria 4.0. A intenção da associação é atrair também as techs, grupos de pesquisa formados por cientistas e pesquisadores de centros de ensino e universidades.

Após a primeira avaliação, totalmente online, as startups e techs selecionadas serão convidadas a comparecer em um evento presencial na sede da ABAL, no mês de maio, quando apresentarão as soluções pensadas para o desafio — no universo da inovação aberta, esse processo é conhecido como pitch, e se refere a uma apresentação concisa para despertar o interesse do cliente ou investidor. Em seguida, participarão de uma rodada de negócios. De acordo com José Thomaz Alves, coordenador de Gerenciamento de Riscos Logísticos da Novelis América do Sul, integrante do grupo de trabalho da ABAL, a expectativa desse evento é analisar a aplicabilidade das soluções pensadas pelas startups e techs nas operações da companhia. “Essas empresas chegam para somar nessa empreitada de assegurar a procedência do alumínio, desde a matéria-prima até os derivados e a sucata”, avalia Alves. “É tudo muito aberto. Os negócios poderão ser gerados individualmente com cada associada ou em conjunto. É possível que surjam soluções úteis para outras indústrias que também sofrem com a falta de rastreabilidade e pode haver, ainda, soluções que atendam outras demandas do nosso próprio setor”, completa Kaísa. Ao final, a ABAL fará um reconhecimento das startups e techs que se destacarem no desafio e, com os aprendizados da primeira experiência, novos desafios de inovação poderão ser lançados no futuro.


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