Criado em 2019 com o objetivo de aproximar universidades a empresas, o Projeto ELO Academia & Indústria, da Associação Brasileira do Alumínio (ABAL), entra em um novo estágio de maturidade em 2026. De acordo com Denise Veiga, responsável pela área técnica da ABAL, o projeto chegou a um estágio em que as formas de interação entre academia e indústria já foram desenhadas, testadas e validadas na prática.
“Agora estamos consolidando toda essa experiência em procedimentos que ajudam a orientar o projeto. Hoje, ele se apoia em quatro pilares principais: aproximar universidade e indústria de forma estruturada, incentivar a pesquisa aplicada, promover a inovação e formar profissionais qualificados para o setor do alumínio”, aponta.
Plataforma online
O “coração” da iniciativa continua sendo sua plataforma online, que reúne e organiza as linhas de pesquisa com base nas necessidades reais do mercado. Na prática, a ferramenta tem funcionado como um guia importante: em muitos casos, as universidades já desenvolvem estudos alinhados aos temas propostos; em outros, a plataforma ajuda a direcionar os projetos acadêmicos para esse universo, facilitando o diálogo com as empresas.
Segundo Denise, a reformulação do projeto, realizada nos últimos anos, trouxe ganhos claros de agilidade e flexibilidade às interações, permitindo desde consultas técnicas pontuais até coorientações acadêmicas mais complexas. A proposta, porém, não era apenas ampliar o número de iniciativas, mas aprimorar a qualidade das pesquisas desenvolvidas.
“A iniciativa abrange desde projetos de iniciação científica até pesquisas de pós-doutorado, valorizando todas as etapas da formação acadêmica, sem atribuir pesos distintos aos projetos. A priorização exclusiva de iniciativas de alto impacto tecnológico poderia comprometer o desenvolvimento de pesquisadores em início de carreira”, afirma Denise.
Ainda assim, com o amadurecimento do projeto, já há trabalhos pioneiros e alinhados ao estado da arte — o que existe de mais avançado, eficiente e sustentável na produção, processamento e aplicação do alumínio —, incluindo temas como descarbonização, inteligência artificial e novas tecnologias, o que demonstra a evolução e a ampliação do escopo das pesquisas.
Agenda ESG
O Projeto ELO também tem direcionado suas linhas de pesquisa de forma cada vez mais alinhada às agendas ESG (ambiental, social e de governança, em português) da indústria do alumínio. Com isso, vêm sendo priorizados estudos voltados à descarbonização, à eficiência de processos, à economia circular, ao reaproveitamento de resíduos e à aplicação de novas tecnologias.
“Ao conectar essas demandas reais da indústria com a academia, o projeto estimula o desenvolvimento de soluções sustentáveis e, principalmente, aplicáveis, fortalecendo o compromisso da cadeia brasileira do alumínio com práticas responsáveis e de longo prazo”, afirma Denise.
Os resultados práticos desse direcionamento já são perceptíveis. No final de 2025, o Projeto ELO contabilizava oito trabalhos em desenvolvimento, dois concluídos e três em fase de articulação. Entre os destaques estão a parceria entre a Companhia Brasileira de Alumínio (CBA) e a Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), focada na redução da geração de sucata de fundição com o uso de inteligência artificial, e um estudo conduzido pela Novelis em conjunto com a Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), voltado ao reaproveitamento de resíduos industriais.
Impacto e atração de talentos
Embora o foco atual da iniciativa esteja no fortalecimento técnico nacional, com o desenvolvimento de capacidades e experiências dentro do Brasil, os resultados já ultrapassam as fronteiras do País. Como muitas empresas associadas à ABAL têm atuação global, os aprendizados gerados pelo ELO acabam reverberando internacionalmente e contribuindo para o avanço do setor do alumínio em escala mundial.
Outro impacto direto é a atração de novos talentos. Apesar de a ABAL ainda não contar com um mapeamento estruturado de ex-alunos do ELO que foram contratados pelas empresas, já é possível observar um aumento significativo do interesse dos jovens pelo setor. Esse engajamento é reforçado pela integração com o AluHub Academia — antiga iniciativa ABAL Alumínio nas Escolas — que se concentra na capacitação técnica por meio de eventos, enquanto o ELO atua na aplicação prática do conhecimento.
“Dessa forma, a ABAL atua de maneira integrada em todo o ciclo, da aprendizagem à aplicação. Além disso, é comum que participantes de uma iniciativa se interessem naturalmente pela outra, criando um fluxo orgânico de engajamento que tem sido visto de forma muito positiva pela ABAL”, pontua Denise Veiga.
Casos de sucesso na prática
A parceria com as instituições de ensino superior demonstra o valor prático dessa integração. Na UFRN, o envolvimento com o Projeto ELO ganhou força em 2021, inicialmente por meio da Rede de Cooperação em Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação em Materiais e Equipamentos para o Setor Industrial Brasileiro (Rede PDIMat). Desde então, alunos de Engenharia de Materiais desenvolveram estudos sobre a avaliação microestrutural de ligas de alumínio tratadas termicamente e a análise de chapas conformadas de alumínio com e sem tratamento térmico em parceria com a CBA.
Atualmente, a universidade estrutura um novo projeto com a mesma empresa. Iniciado agora em março, ele terá o prazo de dezoito meses de vigência, voltado à implementação de ferramentas computacionais de melhoria de processos. Para o professor Bismarck Luiz Silva, do Departamento de Engenharia de Materiais da UFRN, a união entre a demanda industrial e a formação de engenharia é o diferencial do projeto.
“A ABAL é a única associação que tem esse olhar de formação e isso é muito útil no contexto de formação de engenheiros na indústria 4.0. Os alunos ficam engajados no projeto e desenvolvem muitas competências técnicas e comportamentais exigidas hoje”, destaca o professor, garantindo que a instituição pretende continuar na iniciativa.
O Instituto Federal de São Paulo (IFSP) também coleciona resultados de ponta com o Projeto ELO. Por meio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e do Laboratório de Aquisição de Dados, Ensaios e Caracterização de Materiais (Ladecam), o instituto desenvolveu pesquisas em parceria com a CBA, Termomecanica e a Prolind.
Os trabalhos desenvolvidos no âmbito do projeto envolveram três estudos principais. O primeiro abordou a liga 8011, com foco na caracterização mecânica e microestrutural após tratamentos termomecânicos, cujos resultados foram apresentados em um congresso internacional promovido pela ABAL. O segundo analisou a liga 7075, também sob a perspectiva de alterações microestruturais e mecânicas após tratamento por shot peening (processo de tratamento a frio utilizado para aumentar a resistência e a vida útil de peças metálicas), trabalho apresentado na 6th South American Conference on Industrial Engineering and Operations Management, realizada em Sorocaba (SP). O terceiro consistiu em um projeto de mestrado sobre a liga 6351, dedicado ao estudo do comportamento em fadiga e tração, com caracterização microestrutural e mecânica.
A parceria agora avança para uma nova etapa, com a previsão de um segundo pós-doutorado integrado ao projeto. A pesquisa deverá avaliar o efeito do shot peening em três ligas de alumínio — duas da série 6xxx e uma da série 7xxx — incluindo análises de propriedades mecânicas, alterações microestruturais e resistência à corrosão após o tratamento com diferentes tipos de granalhas.
Wilson Carlos da Silva Júnior, professor do IFSP no campus Guarulhos nos cursos de Bacharelado em Engenharia de Controle e Automação, Engenharia de Computação e no campus São Paulo no Mestrado Acadêmico em Engenharia Mecânica, avalia que o ELO enriquece profundamente o conhecimento técnico.
“Tenho percebido a importância de pesquisas desse tipo, mostrando ao aluno como é o desenvolvimento de pesquisa aplicada e dando a oportunidade de uma outra perspectiva de carreira, pois hoje muitas empresas procuram pessoas para os departamentos de Inovação, ou de Pesquisa e Desenvolvimento”, afirma o pesquisador, ressaltando que o sucesso da ação rendeu até mesmo um acordo de parceria de médio prazo entre a instituição e a ABAL.
Foto: Divulgação ABAL




