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No Dia Nacional da Reciclagem do Alumínio, destacamos a hegemonia do Brasil no reaproveitamento de latas

Consumidor já dá prioridade a soluções sustentáveis, enquanto parlamentares buscam estímulo para as indústrias sustentáveis

No Brasil, desde 2003, 28 de outubro é considerado o Dia Nacional da Reciclagem do Alumínio. O País, aliás, ostenta um feito significativo sobre o assunto: é o maior reciclador do mundo de latas feitas com o metal.

Os últimos dados divulgados pela Associação Brasileira do Alumínio (ABAL) e Associação Brasileira dos Fabricantes de Latas de Alumínio (Abralatas) mostram que a reciclagem chegou a 97,3% em 2017 – das 303 mil t de latas de alumínio para bebidas colocadas no mercado, 295 mil t foram recolhidas e recicladas. A média mundial de reaproveitamento do item é de 69%, segundo levantamento realizado pela Resource Recycling Systems (RRS), contra 43% para as garrafas PET e 46% para as garrafas de vidro.

O feito é extremamente significativo quando olhamos, por exemplo, para o estudo Solucionar a poluição plástica: transparência e responsabilização”, feito pelo Fundo Mundial para a Natureza (WWF). O levantamento aponta que o Brasil é o 4º maior produtor mundial de lixo. São 11.355.220 t e apenas 1,28% é reciclado. Só estamos atrás, na ordem, dos Estados Unidos, China e Índia.

Outro dado que impressiona e joga luz para a importância da reciclagem é o Overshoot Day, ou Dia da Sobrecarga da Terra, que anualmente aponta o dia do ano em que esgotamos, em consumo, tudo que a Terra é capaz de produzir de maneira natural ao longo de 365 dias. A data chega cada vez mais cedo. Em 2019, foi no dia 29 de julho — consumimos 70% mais do que o planeta consegue regenerar.

Diante disso, produzir sem agredir a natureza — e de maneira sustentável — é essencial. Por ser 100% reciclável, o alumínio é bem visto não apenas pela indústria, mas pelos próprios consumidores. A pesquisa Environment Research 2019, realizada pela Tetra Pak em quinze países, revelou que 93% dos consumidores brasileiros consideram marcas com embalagens ambientalmente responsáveis no momento de decisão de compra, enquanto que 73% acreditam em uma mudança de hábito com foco nas futuras gerações.

Decisão de compra: 93% dos consumidores brasileiros consideram marcas com embalagens ambientalmente responsáveis (crédito: divulgação)

Valéria Michel, diretora de Economia Circular da Tetra Pak para as Américas, opina sobre o tema. “Identificamos o fortalecimento da prática do consumo consciente”, diz ela. “Nesse sentido, há um movimento cada vez mais latente para que as marcas e os produtos sejam esclarecedores acerca dos compromissos ambientais”, complementa.

Além da conscientização do consumidor, há no Congresso Federal um movimento de estímulo tributário para a industrialização sustentável. A Frente Parlamentar Mista pela Criação de Estímulos Econômicos para a Preservação do Meio Ambiente conta com um senador e 218 deputados que defendem, por exemplo, a contemplação do assunto na Reforma Tributária.

Em entrevista ao portal Revista Alumínio, o presidente da Frente Parlamentar, deputado federal Arnaldo Jardim (Cidadania-SP), abordou o tema.

“Precisamos assegurar que, na discussão desse novo modelo [tributário], seja garantido um tratamento diferenciado a setores da economia que investem na reciclagem, cujas tecnologias beneficiem a população e o meio ambiente”.

Investimento das empresas

Voltando à reciclagem das latas, a velocidade com que a atividade é desenvolvida também chama atenção: desde a compra de uma embalagem fabricada com o metal até o seu retorno à gôndola, passando por todo o ciclo de reciclagem, são cerca de 60 dias — confira o processo completo.

A Novelis é referência no assunto e, neste contexto, anunciou investimentos na ordem de R$ 650 milhões para ampliar a capacidade de laminação de alumínio para 680 mil t por ano, e de reciclagem para 450 mil t por ano.

“A reciclagem é parte da nossa estratégia de negócio”, afirma Eunice Lima, diretora de Comunicação e Relações Governamentais da Novelis. A empresa representa 60% do volume reciclado no Brasil, com 17 bilhões de unidades por ano. Além disso, 70% da produção de bobinas de alumínio da companhia já conta com a matéria-prima reciclada. Em 2011, a porcentagem era de 47%.

“Investimos constantemente para ampliar o conteúdo reciclado em nossos produtos”, informa Eunice. Segundo ela, a reciclagem é importante para a sustentabilidade de toda a cadeia, pois auxilia a Novelis e também os clientes a reduzir a pegada de carbono. A operação utiliza apenas 5% da energia necessária para produzir o alumínio primário e reduz em 95% a emissão de gases do efeito estufa.

O Grupo ReciclaBR, por sua vez, expandiu a operação com o aumento da planta de Paranaíba (MS) e a inauguração de uma nova unidade em Betim (MG), com capacidade para 2.500 t/mês. Além disso, a empresa tem 26 centros de coletas espalhados por 18 Estados da União.

Mudança social e econômica

Para Eunice, da Novelis, o alumínio é um dos protagonistas da transformação socioambiental e econômica do País. Milhares de pessoas estão envolvidas no processo de reciclagem das latas, o qual começa com o descarte correto de resíduos, passa pelas cooperativas de reciclagem e segue para as recicladoras.

A reciclagem das latas de alumínio tem mudado a vida de milhares de pessoas no Brasil (crédito: divulgação)

“São cerca de 600 mil pessoas envolvidas com a reciclagem e mais de 2 mil estabelecimentos engajados na operação. É por esse motivo que investimos constantemente em projetos que reforçam nosso compromisso com a sustentabilidade.”

Em 2016, apenas a atividade de coleta das latas de alumínio foi responsável por injetar R$ 947 milhões na economia nacional. Em 2017, o valor foi ainda maior, na ordem de R$ 1,161 bilhão — crescimento de 22%.

A Novelis desenvolve alguns projetos junto às cooperativas. Um deles visa à profissionalização da gestão e à melhoria de qualidade de vida dos cooperados. O projeto já beneficiou 1.992 cooperados, com quase 11 mil horas de treinamento e 30 formações oferecidas por profissionais capacitados na cidade de São Paulo.

Neste ano, a empresa também reforçou a presença com o projeto “Diálogos com Cooperativas”, que busca a aproximação com esses grupos de diferentes Estados. O projeto-piloto está em Recife e Salvador, e deve se expandir para outras regiões do País. Além disso, o “PIMP Nossa Cooperativa” tem o objetivo de melhorar e humanizar os espaços físicos das cooperativas e democratizar manifestações artísticas. Completando o ciclo, a Novelis ainda oferece os cantos de leitura para estimular a prática entre os cooperados e familiares.

Outros materiais

De acordo com Thiago Marândolo, pesquisador do Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais (Cefet-MG), o setor automotivo tem capacidade para ser a 2ª maior fonte de alumínio reciclado do Brasil, tendo em vista que a aplicação do metal, hoje, varia de 30 a 150 kg em partes como carroceria, rodas, bloco e pistões. A Cefet-MG trabalha na criação de uma cadeia para reciclagem automotiva.

No varejo, a Nespresso mantém um programa de reciclagem das cápsulas de alumínio totalmente sustentável. Inclusive, a marca firmou parceria recente com a Victorinox para o lançamento do canivete de bolso Pioneer Nespresso Dharkan. Na cor azul-escuro, a edição limitada é produzida com 24 cápsulas recicladas de café e segue a tendência upcycling — que consiste em dar, de maneira criativa, um novo propósito para um material que seria descartado, com qualidade igual ou melhor que a fabricação original.

Canivete Pioneer Nespresso Dharkan: produzido a partir da reciclagem de 24 cápsulas de alumínio para café (crédito: divulgação)

“Atuamos em todos os segmentos de reciclagem de alumínio, reaproveitando, por exemplo, panelas, chapas, rodas, blocos e cabos de alumínio”, informa Mario Fernandez, CEO do Grupo ReciclaBR. “A diferença das outras sucatas para as latas está no ciclo de vida dos demais itens: nossos centros estão capacitados para capturar todos os tipos de sucata de obsolescência”, complementa a empresa.

Com foco no setor automotivo, a Novelis está desenvolvendo parcerias globais com grandes montadoras para criar a próxima geração de automóveis, que proporcionará o desempenho almejado pelo consumidor e contribuirá com a sustentabilidade.

“Nossa experiência nos capacita a entender e ajudar os clientes a abordar a sustentabilidade ao longo dos ciclos de vida do alumínio. São soluções para as mais exigentes aplicações nos segmentos de caminhões, ônibus e implementos rodoviários”, revela Eunice Lima, da Novelis.

Com um modelo de reciclagem de ciclo fechado para o setor, a Novelis capta e recicla o alumínio diretamente das instalações de fabricação dos clientes e o devolve como novas chapas para fins automotivos. Além disso, também trabalha para soluções de final de vida útil. De acordo com Eunice, o uso de tecnologia de última geração possibilita a melhora do acabamento superficial e da formabilidade nas linhas de produção.

Ainda de acordo com a executiva da Novelis, um veículo com uso intensivo de alumínio pode reduzir em até 20% o consumo total de energia no ciclo de vida e até 17% nas emissões de CO2. “Essa visão é o motivo do nosso compromisso com o desenvolvimento contínuo de novos produtos com porcentagens ainda maiores de alumínio reciclado também para o setor automotivo”, destaca Eunice.

Os fatores que explicam o sucesso da reciclagem da lata de alumínio no Brasil, na visão da Novelis:

  • Investimento industrial em capacidade de reciclagem: o processo só acontece, de fato, quando o material usado retorna para a indústria e é reprocessado para voltar ao ciclo. Ter uma indústria que investe na capacidade de reciclagem é vital para o sucesso;
  • Indústrias que absorvem todo o material coletado (comprador garantido);
  • Valor agregado da sucata que remunera atividades de coleta e transporte: a logística, em um País com a dimensão de um continente como Brasil, é um desafio. O valor da sucata de alumínio é suficiente para remunerar as atividades de coleta e transporte da lata de alumínio que é consumida em Manaus, por exemplo, e retorna para São Paulo para ser reprocessada e voltar ao ciclo;
  • Logística reversa organizada: Antes mesmo da Política Nacional de Resíduos Sólidos, a logística reversa da lata de alumínio já era organizada independentemente da obrigação legal;
  • Valor compartilhado por todos os elos da cadeia;
  • Estruturação da reciclagem de alumínio como negócio.

Crédito da imagem de abertura: divulgação

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